sexta-feira, 20 de março de 2009

A Espera



Aquela espera era rotineira mas insuportável. Não valia a pena fechar os olhos e tentar dormir. O corpo não deixava. Cada minuto durava uma vida inteira, talvez nem chegasse viva ao próximo. O fim da espera nunca tinha hora marcada. Podia demorar o dia inteiro, podia surgir no minuto seguinte. A sua cabeça fervia em pensamentos terríveis e desorganizados, o corpo teimava em desobedecer-lhe e ganhava vida própria.
Perante este quadro, sabia que só havia uma coisa a fazer. Desligar a luz e ligar a música, som no máximo. Só resultava com o Radio Waves do Waters. Aos primeiros acordes fechava os olhos e deixava que o corpo desorganizado se orientasse pelo ritmo. Em poucos segundos a harmonia tomava conta de tudo. A partir daquele pequeno quarto para os lados da Estrada de Benfica, a rapariga, tal como Billy, entrava em comunicação com o universo. Na completa escuridão (uma das condições essenciais para que a estratégia resultasse) e dançando como se da última dança se tratasse, sentia-se abençoada. A espera até podia não ter fim. Assim estava protegida. Pelo poder da música, pelas ondas que a ligavam ao resto do(s) mundo(s). Assim permaneceria viva.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Laura



Mais uma vez volto ao ser pequeno e curioso que fui. À casa dos meus pais, às suas bandas sonoras. Juntamente com a "Construção" do Xico Buarque, este tema do Zeca Afonso trazia-me um sentimento que naquela altura não sabia explicar. Ficava presa nos sons, na letra que desesperadamente tentava descodificar. Que segredos eram estes? De que mundos falavam? Que gente triste era esta? E porque é que a música me prendia e me enredava se ao mesmo tempo me causava um desconforto tão grande?
Os meus pais iam soltando pistas:
- Antes ouvíamos o Zeca muito baixinho, sabias? Os vizinhos não podiam ouvir. Ninguém podia saber.
- Antes quando? - perguntava eu, alarmada.
- Antes da Liberdade, sabes? Antes do 25 de Abril.
- E como era quando não havia liberdade?
- Era triste. Toda a gente tinha medo. Nem podíamos conversar. O pai corria perigo. Escondia as pessoas que lutavam pela liberdade.
- Como o Mário Soares e o Álvaro Cunhal?
- Sim, mais ou menos. Cada um fazia o que podia. E não podíamos dizer a ninguém. As pessoas más vinham e levavam-nos. Era muito complicado. Um dia vais entender...
Entendi logo. Não como depois, claro. Mas entendi. Entendi que aquela música misteriosa vinha de um tempo de medo e de silêncio. Um silêncio forçado, que abafava gritos e choros. Tive tanta pena da tal Laura. Devia ser bonita e especial, senão o Zeca não lhe tinha feito uma música. Mas que vida triste havia ela de ter para ele a chorar assim!
Ainda hoje é minha música preferida do Zeca. A misteriosa Laura e a sua espera angustiada permanecem tão enigmáticas e belas como da primeira vez. E o Zeca permanece o contador daquele mundo. Um mundo que já não conheci e que não quero que seja o meu, o nosso. Nunca mais.

Este texto é dedicado ao meu pai, Américo Ferreira. Um homem que lutou sempre do lado certo da luta, sem nunca se prender a outros interesses que não os da sua própria humanidade.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Ideologia



Cazuza. Disse um dia, "sou o beijo da boca do luxo na boca do lixo". Um dos meus heróis. Não morreu de overdose. Morreu de SIDA. Escreveu este tema já doente e sabendo-se sem salvação possível. Convido-vos a conhecer esta personagem e a sua obra. Garanto que não se vão arrepender.

Ideologia

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito...

Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do "Grand Monde"...

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma para viver
Ideologia!
Eu quero uma para viver...

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs
Não tem nenhum rock 'n' roll
Eu vou pagar
A conta do analista
Para nunca mais
Ter que saber
Quem eu sou
Ah! saber quem eu sou..

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro...

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma para viver
Ideologia!
Para viver...

Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro...

Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma para viver
Ideologia!
Eu quero uma para viver..
Ideologia!
Para viver
Ideologia!
Eu quero uma para viver...

terça-feira, 3 de março de 2009

E porque jukeboxes há muitas... Elephant Gun



Tenho uma amiga que tem um talento muito especial para me enviar a música certa na altura exacta. Músicas que acabam invariavelmente por acompanhar etapas da minha vida. É o caso deste Elephant Gun. "Vá... Toma lá esta para te animares!", disse-me ela um destes dias.
Durante algum tempo foi o que ouvi, em repeat, numa viagem pelos diferentes caminhos desta música e deste vídeo, surpreendida a cada vez com os seus diferentes pormenores.
Que é o mesmo que nos acontece tantas vezes na vida quando tropeçamos em alguém "que nos faz parar, voltar atrás, olhar e perceber onde foi", como já aqui foi escrito neste blog. E depois de percebermos onde foi, seguimos o nosso percurso à descoberta da outra pessoa, surpreendidos a cada vez com os seus diferentes pormenores.
E isto que eu escrevo será verdade para quase todas (se não todas) as pessoas que tenho conhecido ao longo da vida. Descobrir o Outro é das mais complexas, estranhas, singulares e belas experiências da vida. Que nos faz ir mais longe. Fora de nós, mas sobretudo dentro de nós.
Descobrir este Elephant Gun acompanhou uma outra peregrinação que me deixou a confabular sobre histórias de faunos da Guerra Civil Espanhola, bibliotecárias com nomes de bicho da fruta, pacotes de batatas fritas aldrabados por estratégias de marketing opressivo, digestivos com sabor a óleo de cedro, nenucos aniversário que mais parecem o Benjamin Button... Aninhada em tabuleiros de xadrez imaginários, num xeque-mate que se redescobre a cada instante. E que me surpreende a cada vez com os seus diferentes pormenores...

La Payita

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Neve



Em miúda sonhei com uma família grande. A minha era francamente pequena. Veio a adolescência e a família passou a ser a Grande Seca a evitar. Ainda por cima, sendo pequena (a família), os holofotes pareciam estar constantemente virados para mim inviabilizando qualquer tentativa de passar despercebida. Cresci e o regresso foi inevitável. Mas agora já não tinha apenas uma família. Apaixonei-me por um homem que tem uma família grande. Muito maior e complexa do que aquela com a qual sonhava em pequena. Nos primeiros tempos nem sabia bem como havia de lidar com tanta gente, tantas histórias, tantos hábitos e regras novas. Sentia-me absolutamente perdida naquela "multidão". Olhava para trás sem perceber porque é que algum dia tinha desejado uma família grande. Eram demasiadas sensibilidades, personalidades e feitios para gerir. Uma canseira!
Depois de ter sido mãe passei a observar a forma como as minhas filhas lidam, tão naturalmente, com toda esta multidão de parentes. Como para elas, tudo se encaixa, sem receios ou melindres, como é típico das crianças. Por essa altura já tinha percebido que além de alguns (poucos) amigos especiais, quando a vida nos prega rasteiras, a família é tudo o que nos resta, o único tronco que nos salva da corrente. Mas a lógica de clã, grande e apertado continuava a ser ligeiramente desconfortável.
Há uns dias, fizemos, com um dos grandes clãs ( sim, há mais que um...), uma viagem à neve.
- "Mãe, olha a música da neve! E nós também vamos! Com os avós, as tias, os tios, os primos..." - dizia a minha filha mais velha quando ouvia este tema dos Red Hot.
Eu estava extremamente cansada, stressada com o trabalho que anda mesmo trabalhoso. Era apenas um fim de semana. Achei que voltaria ainda mais cansada, mas a excitação das minhas filhas com a neve e a família era tal que meti a viola no saco e lá fui.
Voltei quase como nova. Pronta para mais uma semana difícil. O cenário era magnífico e apagava tudo o que ficara para trás. Só nós, a neve, o ar puro. O riso dos miúdos e dos graúdos. Só isso...
Algures durante aquele fim de semana, dei por mim a olhá-los e a pensar como era bom estar ali com eles, como tinha saudades de passar algum tempo com cada uma daquelas almas. Dei por mim a perceber que efectivamente tenho o meu lugar no clã. Que lhes pertenço e eles a mim.
Dei por mim a pensar como é fantástico ter uma família grande.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

E porque jukeboxes há muitas... Há amigos e amigos



Há amigos e amigos.

Há aqueles amigos que, para além da amizade, oferecem-nos mais, muito mais. Partilham o seu conhecimento, a sua visão do mundo, daquilo que os rodeia.

Foi um Amigo assim que me abriu o espírito e a razão para um dos maiores ícones da musica em Portugal e por que não, no mundo.

Porque uma coisa é certa: é enorme como músico e não era menor como homem.

Era porque já nos deixou, mas ficou a sua música que continua actual, única, mágica, capaz de nos agarrar e transportar para outro mundo, o mundo do homem que a compôs e que via as coisas de uma forma muito própria, como só um génio é capaz de ver.

É um pouco do homem e não do músico que gostaria de partilhar convosco. Se é que esta destrinça é possível, pois talvez homem e musico sejam inseparáveis, incapazes de estar um sem o outro.

Quando lhe perguntaram como era possível que, um musico da sua idade e experiência, reconhecido nos quatro cantos do mundo, autor de verdadeiras obras de arte musicais, digníssimo guitarrista ovacionado nas maiores e mais famosas casa de espectáculo deste planeta, continuasse a deslocar-se, todos os dias, de autocarro e/ou eléctrico para o seu local de trabalho que zelosamente fazia questão em manter, sujeito às dificuldades inerentes a estas jornadas, quando poderia simplesmente usufruir das comodidades inerentes à sua condição de musico famoso, Carlos Paredes respondeu:

- Se não continuasse a deslocar-me desta forma, percorrendo os mesmos caminhos, misturado com as pessoas como sempre fiz, então a minha música seria outra, seria diferente. São estas rotinas diárias (deslocações, função de administrativo no hospital) que mantêm a pessoa que sou, que suportam os meus sentimentos e que dessa forma conservam os requisitos necessários para continuar a produzir a música que gosto e que pretendo atingir.

É esta visão, de um homem ao mesmo tempo tão grande e tão simples, que me faz ver aquilo que realmente é importante nesta vida…

Sorte minha, Amigo Pedro por contar com a tua Amizade!!!

Gonçalo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Xico e o Caetano



A casa dos meus pais. Domingos de manhã. O meu pai a ler o jornal, a minha mãe a fazer bifes com açorda para o almoço. Eu, pequenina, sentada no chão a fazer construções, atenta às palavras. Atenta à música. O disco a rodar. O Xico e o Caetano. Dizem que ainda mal falava e já cantarolava as canções deles. Fazem parte de mim, são família. Cresci com eles, com o poder da sua música, do seus poemas.
Ainda hoje me sinto reconfortada ao ouvi-los. Como se voltasse ao ser pequeno e curioso que fui. Como se voltasse a casa, ao colo do meu pai, que cheirava a aftershave e tabaco. Aos domingos solarengos e preguiçosos. Quando o mundo lá fora se punha quieto e silencioso, só para ouvir o Xico e o Caetano.