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sexta-feira, 22 de maio de 2009
Fado
Sempre ouvi fado em casa, cresci com ele e com a Amália. Fiz questão de não gostar, de não querer ouvir, apesar da insistência dos meus pais. O meu encontro com o Fado surge muito mais tarde, embora hoje saiba que ele sempre fez parte de mim. Só encontro o Fado quando, depois de deixar Lisboa, a reencontro em canções como esta. Quem nunca migrou certamente não entenderá do que falo. Eu não entenderia se não tivesse acontecido comigo.
Vivo com um músico que toca guitarra portuguesa e que ouve muito fado. A minha reacção habitual é repetir com ele o que fiz com os meus pais. Não gosto, não quero ouvir. Mas um dia, ele saiu e deixou no leitor de cd's um disco da Amália. Resolvi ouvi-lo. Tinhamos saído do campo para outra cidade que não Lisboa. Sentia que aquele novo lugar não tinha lugar para mim.
O cd foi tocando e lentamente a minha cabeça foi invadida por imagens da minha cidade. Pelos tais cantos e recantos que descobrira por vivê-la diarimente, por ouvir os seus ritmos e melodias. As cores, os cheiros, os rituais, voltavam como por magia. Chorei copiosamente. O tema "Gaivota" transformou-se na imensa saudade que sinto da minha cidade. De tal forma que, mil vezes ouvido, continuo a chorar copiosamente com saudades de acordar e adormecer na minha Lisboa.
Quando ouvi pela primeira vez a versão do "Gaivota" pelo Projecto Amália Hoje não gostei. Estranhei. Forcei-me a ouvir novamente e compreendi. Não há lugar a comparações. Amália Hoje - o nome diz tudo. Andei intrigada, com vontade de ouvir mais temas deste Projecto. Apanhei-os nos Globos de Ouro, uma revelação.
Finalmente!
A minha geração, liberta de preconceitos e fantasmas, pega na tal herança séria, profunda e intocável, moldando-a à sua maneira. Sem medos, a herança de Amália reclamada pelas nossas tribos. Senti que um peso me saía dos ombros ao ver que demos realmente a volta. Resolvemo-nos. Mais um passo em frente.
I still believe!
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